O Palude Político

Como a política tem se tornado um pântano enorme, sem proporções.
Pode-se esperar de tudo dos figuraças politicalhos; não exercem verdadeiramente a política como ideal ou até mesmo aquela descrita no livro ‘o príncipe’ de Maquiavel. Posso afirmar, a fortiori, que desde que votei pela primeira vez, nunca tive confiança ‘nessa gente que promete e não cumpre’. Vãs promessas, logros e fraudes são alguns dos atos por elas praticados; pessoas que da noite pro dia querem se tornar alter ego do povo; pra quê? Para a massa idiota confiar e depois ser, no mais valioso sentido do termo, usada e abusada a posteriori.
Esse é o papel do palude político, do lamaçal que há nesses chamados colégios iniciadores de ilusionistas e, ilusionistas de primeira classe; quanta retórica, quanta oratória para depois facilmente ‘os imbecis que não votam nulo’ serem manipulados, esse é termo correto. Votar em quem se ninguém cumpre o que promete? Votar pra quê se ‘eleição não muda nada, viva a revolução’; um grafite há décadas pintado num muro do museu Mariano Procópio que nos transmite essa fiel e veraz realidade de que eleição realmente não tem mudado nada pra melhor.
Como disse Hipócrates: “ ars longa, vita brevis”. Vivemos de uma ‘arte’ politicalha; mas não pode ser incluída no campo das belas artes, mas sim na prestidigitação; parece real, mas não é.
Prefira andar em ruas que não conduza aos caminhos do pântano, pois certamente, uma vez lá, você poderá gostar da lama podre e cada vez mais poderá ficar sem ética; aliás, ética é algo que não existe nesse meio; raríssimas exceções. É como encontrar um diamante na calçada, difícil não é?
Pois quisera eu existisse pessoas com tamanha hombridade de caráter para serem condecoradas verdadeiros políticos, mas no país do carnaval, tudo vira samba, pizza e também palude político.

A FORÇA MAIOR

 

 

A força maior está no amor, e esta é interior, revelando-se de dentro para fora, porque a paixão manifesta na maioria dos casos como o oposto, ou seja, de fora para dentro, quando muito paira somente no artificial, sobrecarregando todo o exterior.

 Saber diferenciar amor de paixão é tarefa árdua, por demais complexa, pois a paixão traz consigo um pouco do amor, visto que ela não sobreviveria por muito tempo se não o tivesse. O amor, assim, se faz indispensável para a paixão, mas não é ele o essencial para o apaixonado.  A pessoa que está apaixonada vê, logo em primeira instância, anseios e desejos de ordens físicas, enquanto que, aquele que ama deseja veementemente o bem estar do casal, procura aprimorar suas boas características e tenta enxergá-las no outro. Aquele que ama não preocupa, pois sabe do seu valor perante o outro e reconhece o valor que o outro lhe preza.

  Viver seus sonhos e procurar conhecer os sonhos do outro é tarefa eficaz para quem ama, logo é através dos sonhos, e muitas das vezes dos sonhos em conjunto que o casal poderá planejar, alcançar e persistir em suas ambições.

 A paixão é cheia dos ‘ismos’, isto é, ela é carregada de materialismo, narcisismo, consumismo, hedonismo frenético dentre tantos outros ‘ismos’. E o interesse da paixão é viver desses meios e fazer deles também um fim, enquanto que para quem se encontra ‘amando’ esses ‘ismos’ não possuem tanto valor e, geralmente ficam em segundo e ultimo plano; é claro que em uma sociedade capitalista esses ‘valores’ são imperantes, mas quem ama não precisa seguir dessas orientações dispostas nesta sociedade, onde tudo se transforma em mercadoria e objeto (os sentimentos, as pessoas…) para ser feliz e amar verdadeiramente.

 Em pleno século XXI, onde as ferramentas de comunicação são amplamente difundidas e utilizadas, elas mesmas desempenham um papel meio ‘estranho’ na sociedade, pois ao mesmo tempo em que mais indivíduos estão aderindo a virtualidade, essa mesma faz com que a força da comunicação interpessoal, aquela cara a cara, boca a boca, olhos nos olhos, que exige contato e comunicação não-verbal se perca, seja esquecida lentamente pelos seres; daí o enfraquecimento do amor e a ascensão  da paixão, porque a paixão não necessariamente precisa de um contato mais profundo, mas o amor sim.

 Tem muita gente dizendo estar amando, quando na realidade está é apaixonada, porque a paixão tem essa característica de em algum momento se metamorfosear em amor, mas o verdadeiro amor consiste na imensa intensidade do envolvimento entre duas pessoas, e não na procrastinação de um desejo alimentado pelo tempo e que tira proveito das situações para sustentar o ego e a libido.

 Todo amor precisa de um pouco de paixão, mas nem toda paixão precisa de uma grande quantidade de amor. Pese na balança, veja qual é o seu caso, a sua situação e reflita se realmente a força maior reside em amar!

O HOMEM LIGHT

O ser humano vive mais em função do que lhe dizem os MCM (meios de comunicação de massa) do que na cruel e verdadeira realidade que é apresentada todos os dias diante de seus olhos.

 O termo light, em seu sentido original refere-se a certos tipos de alimentos como exemplo a coca-cola sem cafeína, a manteiga sem gordura, açúcar sem glicose; já para o ser humano o significado tem outra conotação, aplicando-se o termo às pessoas levianas, débeis, reduzidas, com muita fachada.

 O que marca o homem light como sendo tal, são algumas características como o hedonismo, o consumismo exacerbado, a permissividade e o novo relativismo, que passa a ser seu código ético, ou seja, tudo para esse tipo de pessoa é contingente. Dessa intolerância infindável nasce a indiferença pura, pois para esse tipo de gente não existe princípios sólidos, mas somente pontos de vista.

 Sua moral, se é que ele possui, é feita à base de regras de urbanidade somente. Em suma, o homem light é um ser humano sem referência, sem opiniões próprias, onde as fronteiras do maniqueísmo foram apagadas de sua reminiscência pelo poder persuasivo da mídia que tudo manipula e controla.

Gabriela Laurentiis:A amizade e o amor agora buscam o proveito próprio. Especial Caros Amigos, nov. 2007.

Gabriela Laurentiis:A amizade e o amor agora buscam o proveito próprio. Especial Caros Amigos, nov. 2007.

 

Por Fernando Raine

 

Numa entrevista formatada pergunta-resposta, a especialista Gabriela Laurentiis, escreve de Paris à revista Caros Amigos sobre o que entendemos ser o modo de pensar pós-humano e sobre a fragilidade dos relacionamentos na era contemporânea.

 Seguindo uma linha de pensamento da filosofia anti-globalização do filósofo polonês Zygmunt Bauman, a escritora pondera que a durabilidade do amor implica ou não em diferenças sociais.

 Já num segundo momento a especialista discorre se com as novas tecnologias, as relações sociais mudam. Evidentemente, para ela há um risco em estar na internet por causa da simulação, do mal-entendido e da falta de autenticidade; segundo Gabriela há “uma fluidez enganosa”, mas por outro lado, a internet é um meio onde se facilitam os relacionamentos, deve-se saber filtrar o essencial e o que parece ser verdadeiro segundo os critérios de cada um.

 No terceiro parágrafo, Gabriela Laurentiis informa que o desenvolvimento da violência incorre pela satisfação do desejo imediato. Há o que pode se chamar de cauterização, ou seja, acostumamos com as catástrofes, com as guerras e nos tornamos indiferentes, e isso faz com que haja desigualdades, pois prevalece o aumento do ressentimento.

Posteriormente a especialista constata que, quando o homem migrou do campo para a cidade, ele foi se tornando superficial e houve consequentemente a diminuição das relações entre indivíduos extremamente próximos, portanto verifica-se aí uma efemeridade no relacionar-se, e aumenta o individualismo, o materialismo e o consumismo, fatores que imperam nas cidades.

Num último momento a escritora pondera sobre o porquê o amor está se tornando líquido, utilizando-se aí de uma analogia ao livro de Bauman, O Amor Líquido.

Conclui afirmando que “nessa relação amorosa, cada um é a fonte de prazer e também de sofrimento, porque, quando dois seres específicos se encontram, eles vivem momentos de acordo e momentos de conflito, o conflito sendo inerente a todas as relações humanas.”

Concluímos essa resenha com uma frase de Bauman, que cabe exatamente ao que Laurentiis se propôs a escrever. Ei-la: “[...] e assim é numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea; resultados que não exigem esforços prolongados, receitas testadas, garantias de seguro. A promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a “experiência amorosa” à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultado sem esforço.”

ON LANGUE

 

Este estudo propõe uma reflexão sobre o papel da palavra em nosso contexto sócio-cultural, e também um aprofundamento dos estudos lingüísticos no que tange a habitação do vocábulo.

Residir a palavra tem o significado de persistir nela. Desconstruir, reconstruir e refletir são necessários para compensar o ato crítico correspondente à fala, isto porque a linguagem na forma oral, ou que seja até mesmo na forma escrita é substancialmente afetiva e mantém traços da persona do crítico que a reside. Daí Jacques Derrida1 dizer: “o contágio é uma estrutura universal da experiência. Todo o que é vivo tem a potência de contágio. E somente um ser capaz de simbolizar, quer dizer, de se auto-contagiar, se pode deixar contagiar pelo outro em geral. O auto-contágio é a condição de uma experiência em geral”.

Mas o que é a linguagem que contagia? Bem, para Barthes2 é uma língua pele, como no discurso ‘a conversa’: ”a linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras. Minha linguagem treme de desejo. A emoção de um duplo contato: de um lado, toda uma atividade do discurso vem, discretamente, indiretamente coloca em evidência um significado único que é teu desejo, e libera-lo, alimenta-lo, ramifica-lo, faze-lo explodir; por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, eu o acaricio, o roço, prolongo este roçar, me esforço em fazer durar o comentário ao qual submeto a relação”.

Mas não basta habitar a palavra e nem ter consciência de que ela é algo contagiante, é necessário ir além, é preciso contemplar o silêncio onde moram a linguagem, a fala e a afecção causada pela mesma; talvez seja essencial mergulhar no silêncio para encontrar as palavras.




1 Jacques Derrida. De la grammatologie. Paris: Lês éditions de minuit, p.236.

2 Roland Barthes. Fragmentos de um discurso amoroso. Rj: Francisco alves, p.98.

resenha: você quer o que deseja?

Forbes, Jorge. Você quer o que deseja?  Rio de Janeiro: Best Seller, 2005.

 

  Fernando Raine

 

  Entusiasta da música eletrônica e fã do filme Matrix, o psicanalista Jorge Forbes, 52 anos, tem motivos para criar polêmica. Aluno de Jacques Lacan nos anos 70 e um dos principais responsáveis por trazer a psicanálise lacaniana ao Brasil, ele se difere em algumas opiniões. Enquanto a maioria de seus colegas considera esta uma geração individualista, Forbes elogia a atitude criativa da moçada e admira sua capacidade de lidar com a passagem da era industrial para o mundo globalizado. Idéias como essas estão reunidas nas crônicas e conferências publicadas em seu novo livro ‘Você quer o que deseja?’, cujo título já causa certa inquietação.

  Forbes inicia o texto dizendo que milhões de adolescentes foram capturados e seduzidos por Matrix, e a parte que mais lhe interessa no filme é o aspecto no que tange à decisão, pois como ele mesmo diz: Matrix toca a decisão.

  O autor conta uma breve história das partes iniciais do filme e compara uma cena, especificamente a que Morfeu ensina Neo a quebrar a regra aparente do espaço da luta, com a psicanálise, que quebra uma regra de significação, avisando que, se não quebrar essa regra, não conseguirá ir além daquilo que a matriz lhe permite dizer.

  Forbes também cita Lacan, dizendo que em certo momento, no final da análise, a pessoa lê sua vida escrita em um quadro; tal como Neo viu a Smith. Faz também uma analogia a Descartes quando escreve que “para tomar decisão, é necessário que a pessoa se pense, ou seja, penso, logo existo”.

  Em uma parte do texto, o escritor torna claro que há duas maneiras de evitar tomada de decisão: pela certeza da ciência ou pela religião, e fala também que nem todo mundo evita a decisão, que é o caso dos artistas e também de Neo, quando tomou a pílula vermelha. Por conseguinte, o autor enfoca que a decisão é importante porque vivemos numa era de mudança; faz uma analogia entre a era industrial, quando as decisões eram modalizadas pelo poder e pela acumulação, e na era globalizada, quando as decisões não serão modalizadas pelo poder, pela acumulação, mas ao contrário, pela participação e usufruto.

  Jorge Forbes cita Descartes e comenta a respeito dos sentidos: “mas, ainda que os sentidos nos enganem às vezes, no que se refere às coisas pouco sensíveis e muito distantes, encontramos talvez muitas outras, das quais não se pode razoavelmente duvidar…” assim, o autor afirma que Matrix pode ser visto como Descartes reloaded, feito para o povo jovem de 2003.

  Forbes comenta sobre um trabalho que fez com música em um tempo atrás e diz que a música eletrônica (estilo musical usado no filme Matrix reloaded) toca o corpo e esse tipo de música não tem palavra. Sendo assim, ela cria ritmo e, quando a palavra perde a semântica, toca o corpo, ou seja, não há razão e somente emoção.

  No penúltimo parágrafo, o autor fala bem dos irmãos Wachowski, diretores da trilogia Matrix.

  No último parágrafo ele gloriosamente “fecha” a conversa sobre decisão, com um poema de Alberto Caeiro, a respeito da nossa inutilidade no mundo, o nome do poema é: quando vier a primavera.

  A meu ver, Forbes encara Matrix como um fato de estimular uma reflexão sobre a obrigatoriedade de se optar. Este é o grande problema da globalização. Uma vez que existem possibilidades multiplicadas, é preciso optar. E ficou patente no texto, que o autor deixa claro que os adolescentes sabem lidar com a ética cartesiana de Descartes, pois Matrix a todo o momento trata disso, e, se como disse o autor, no primeiro parágrafo, que milhares de jovens foram capturados e seduzidos pelo filme, é evidente que não foi só pelos efeitos especiais, mas sim por um aspecto importante que vai além da estética: tomar decisão no mundo globalizado, como está implícito no texto, é uma questão que responde à ética do desejo e não à do dever.

O QUE AMA COM O VERDADEIRO AMOR

o que ama com o verdadeiro amor

 

 Quem ama com o verdadeiro amor não se limita a amar “no” ser amado o que quer que seja, antes o ama por si mesmo, precisamente o que ele “é” e não o que ele “tem”. Quem ama de verdade, é como se visse através da “roupa” física e psíquica da pessoa espiritual, para pôr os olhos nela própria. Por isso, já se não trata aqui de um “tipo” físico que o excite, ou de um caráter anímico que porventura o apaixone; o que está aqui em apreço é o próprio ser humano, a companheira ou o companheiro enquanto ser incomparável e insubstituível.

 O amor é mais do quem um estado de sentimentos: é um ato intencional. Aquilo para que ele intende é o ser-assim de outro ser humano. Este ser-assim, a essência deste outro ser humano independente, em última análise, a essência em si.

 O amor autêntico, em si e para si, não precisa do corporal, nem para despertar nem para se consumar; mas serve-se do corporal nos dois momentos.

 Para quem ama, o amor enfeitiça o mundo, mergulha-o numa nova valiosidade. O amor dá àquele que ama uma maior altura no que diz respeito à ressonância humana em face da plenitude dos valores. Abre-lhes o espírito do mundo, na sua plenitude de valores, a toda a gama de valores. Assim o amante, ao entregar-se ao tu, experimenta um enrequecimento interior que transcende esse tu: o cosmos inteiro torna-se para ele mais vasto e mais profundo na sua valiosidade; resplandesce nos raios de luz daqueles valores que só o enamorado sabe ver, pois, afinal, não faz cegos o amor, mas sim videntes, dando aguda visão para os valores. Por fim, ao lado da graça de ser amado e do feitiço do amar, um terceiro momento surge ainda no amor: o seu milagre; porque, precisamente através do amor, e dando um rodeio pelo biológico, consuma-se o que é de algum modo inconcebível: uma pessoa nova entra na vida, cheia, ela também, daquele mistério do “caráter de algo único” e irrepetível da existência – e um filho é isto!

 

Excertos de psicoterapia e sentido da vida. Viktor Frankl

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

Alice no país das maravilhas, na concepção Deleuziana:

 Alice não tinha alucinações provocadas por drogas alucinógenas, mas sim, possuía a capacidade de acessar diferentes aspectos do espaço-tempo, do real, ou seja, transitava entre vários platôs. Alice não precisava de alucinógenos, pois ela é como algumas pessoas que transcendem os sentidos com as músicas que ouvem, com os cheiros e toques que sentem…

 Se você acha que para ver luzes coloridas ou adentrar nos não-lugares é necessário ingerir drogas, ou pior, que essas viagens são meras alucinações…ledo engano meu caro!

Existem pessoas transcendentais por natureza!!!

o poderoso mundo dos anúncios

Neste estudo, farei uma discussão, analisando teórica e empiricamente a realidade que o anúncio vai costurando a uma outra realidade que, com base nas relações concretas de vida dos atores sociais, produz um mundo idealizado.

O mundo da publicidade é fascinante. Um mundo onde produtos são sedimentos e a morte não existe. Que é parecido com a vida e, no entanto, completamente diferente, posto que é sempre bem sucedido. Onde não habitam a dor, a miséria, a angústia. Mundo onde existem seres vivos e, paradoxalmente, dele se ausenta a fragilidade humana. Lá, no mundo do anúncio, a criança é sempre sorriso, a mulher desejo, o homem plenitude, a velhice beatificação. Sempre a mesa está farta, a sagrada família, a sedução. Mundo nem enganoso nem verdadeiro, simplesmente porque seu registro é o da mágica.

Pode-se, então, através da publicidade, levantar os olhos para um universo de significações bastante insólito e, surpreendentemente, próximo de outros universos de significação muito conhecidos pelos antropólogos. Como nos mitos das sociedades tribais, também nos anúncios os animais falam e os feitos mágicos são constantes.  O anúncio mostra uma outra realidade que, com base as relações concretas de vida dos atores sociais, produzindo um mundo idealizado.

Cada anúncio, à sua maneira, é a denúncia de uma carência da vida real. Estudar a produção publicitária é, dessa maneira, importante e se justifica na medida em que ela não é apenas volumosa e constante, mais que isto, ela tem como objetivo “influenciar”, “aumentar o consumo”, “transformar hábitos”, “educar” e “informar”, pretendendo-se ainda ser capaz de atingir a sociedade como todo. A publicidade retrata, através dos símbolos que pode manipular, uma série de representações sociais sacralizando momentos do cotidiano. 

O discurso publicitário fala sobre o mundo, sua ideologia é uma forma básica de controle social, categoriza e ordena o universo. Faz do consumo um projeto de vida. A função manifesta da publicidade é aquela de “vender um produto”, “aumentar o consumo” e “abrir mercados”. Se compararmos ao fenômeno do “consumo” de anúncios e o de produtos, iremos perceber que o volume de “consumo” implicado no primeiro é infinitamente superior ao do segundo. Em cada anúncio “vende-se” “estilo de vida”, “sensações”, “emoções”, “visões de mundo”, “relações humanas”, “sistemas de classificação”, “hierarquia” em quantidades significativamente maiores que geladeiras, roupas ou cigarros.

O anúncio dispõe de um amplo espaço de especulação, um amplo espaço discursivo. Nos colocar diante destas discussões torna-se bastante importante para o conhecimento das formas de representação de nossa cultura e do pensamento burguês. De um lado temos as análises “internas” à publicidade. Este nível de recorte do objeto pertence mais a um elenco de estudos que se coloca na ordem de um discurso “de” publicidade, um discurso “interno” ao fenômeno. Num certo sentido, um discurso “nativo”. São análises que pretendem observar os anúncios por sua capacidade de venda, por sua estética ou por sal criatividade e planejamento. São muitas vezes análises de publicitários discutindo e escolhendo anúncios publicitários feitos por outros publicitários para premiar os melhores trabalhos publicitários de um determinado ano.

Este plano de abordagem pertence mais a um tipo de análise que pretende antes legitimar os profissionais, seu trabalho e sua produção, que pensar uma análise crítica que observe o anúncio como instrumento de compreensão da vida social. Compreender a publicidade é, basicamente, olhá-la com a ótica do instrumento antropológico.  É ouvir a palavra dos informantes nos levarem a estrutura de significação na quais estes decodificam anúncios. O caminho mais acessível é aquele de interpretar não a publicidade em si mas um discurso acerca de publicidade decodificada por um grupo de informantes. O anúncio publicitário sendo uma representação social, como fato cultural, possui também um significado que é do domínio público.

 Deste mundo publicitário, podemos retirar o significado de hábitos, práticas e instituições por nós produzidas e mantidas. Aqui, cada vez mais, classificamos e construímos o nosso mundo contemplando significados – marcas, anúncios, etiquetas. Ainda também, vitrinas, objetos, roupas, nossos corpos nos fazem homens-anúncio de um sistema “mágico-totêmico” de cuja indispensabilidade é desconhecida.

 Assim, o sentimento que preside este estudo, o espanto e reflexão frente à publicidade e ao consumo está perfeitamente expresso no poema “eu, etiqueta”, de Drummond:

 

 

 

 

 

 

Em minha calça está grudado um nome

Que não é meu de batismo ou de cartório

Um nome….. estranho.

Meu blusão traz lembrete de bebida

Que jamais pus na boca, nessa vida,

Em minha camiseta, a marca do cigarro

Que não fumo, até hoje não fumei.

Minhas meias falam de produto

Que nunca experimentei

Mas são comunicados a meus pés.

Meu tênis é proclama colorido

De alguma coisa não provada

Por este provador de longa idade.

Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,

Minha gravata e cinto e escova e pente,

Meu copo, minha xícara,

Minha toalha de banho e sabonete,

Meu isso, meu aquilo,

Desde a cabeça, ao bico dos sapatos,

São mensagens,

Letras falantes,

Gritos visuais,

Ordens de uso, abuso, reincidências,

Costume, hábito, premência,

Indispensabilidade,

E fazem de mim homem-anúncio itinerante,

Escravo da matéria anunciada.

Estou, estou na moda.

É duro andar na moda, ainda que a moda

Seja negar minha identidade,

Trocá-la por mil, açambarcando

Todas as marcas registradas,

Todos os logotipos do mercado.

Com que inocência demito-me de ser

Eu que antes era e me sabia

Tão diverso de outros, tão mim mesmo,

Ser pensante sentinte e solitário

Com outros seres diversos e conscientes

De sua humana, invencível condição

Agora sou anúncio

Ora vulgar ora bizarro,

 

Em língua nacional ou em qualquer língua

(Qualquer, principalmente.)

E nisto me comprazo, tiro glória

De minha anulação.

Não sou – vê lá – anúncio contratado.

Eu é que mimosamente pago

Para anunciar, para vender

Em bares festas praias pérgulas piscinas,

E bem à vista exibo esta etiqueta

Global no corpo que desiste

De ser veste e sandália de uma essência

Tão viva, independente,

Que moda ou suborno algum o compromete.

Onde terei jogado fora

Meu gosto e capacidade de escolher,

Minhas idiossincrasias tão pessoais,

Tão minhas que no rosto se espelhavam

E cada gesto, cada olhar,

Cada vinco da roupa

Sou gravado de forma universal,

Saio da estamparia, não de casa,

Da vitrine me tiram, recolocam,

Objeto pulsante mas objeto

Que se oferece como signo de outros

Objetos estatísticos, tarifados.

Por me ostentar assim, tão orgulhoso

De ser não eu, mas artigo industrial,

Peço que meu nome retifiquem.

Já não me convém o título homem.

Meu nome novo é coisa.

Eu sou a coisa, coisamente.

 

à maneira pós-moderna: a crise do significado

Ao escrevermos, como evitar que escrevamos sobre aquilo

que não sabemos ou sabemos mal?É necessariamente neste ponto

que imaginamos ter algo a dizer. Só escrevemos na extremidade de nosso

próprio saber, nesta ponta extrema que separa nosso saber e nossa ignorância

e que transforma um no outro. É só deste modo que somos determinados a escrever.

Gilles Deleuze

Diferença e repetição

 

 

 

 

O que é o pós-modernismo? Ora, se não é esta era na qual estamos imersos, alienados e exaustos com a crise existencial da ruputura-significado?

 Um signo é tudo aquilo que descrevemos, vemos, pensamos, falamos, representamos. E ele basicamente é formado por duas partes: significado e significante. Os conceitos de significado e significante podem ser melhor explicados nesta metáfora: duas faces de uma mesma folha de papel, o conceito (significado) é o anverso, a imagem acústica (significante) o verso; não se pode cortar um sem o outro. O significado é aquilo que é “dizível” e o significante é uma definição que não se pode separar do significado.

 E neste século XXI, presenciamos uma carência do significado para quase todos os discursos vitais; saúde, moda, economia, política etc. Pense na cor vermelha de um semáforo, ela é o significante e o “pare” é seu significado.

 Muitas coisas que presenciamos no âmbito da arte são simulacros, ninguém cria mais. Engraçado que com a virada da modernização para a pós-modernidade houve um aumento do poder de criatividade, mas será para qual favor estará sendo utilizada essa ‘criatividade’? Deixo aí essa questão para você responder, ok?

 O pós-modernismo depende de um modo particular de interpretar, experimentar e ser no mundo – o que nos leva talvez ao que seja a mais problemática faceta do

pós-modernismo: seus pressupostos psicológicos quanto à personalidade, à motivação e ao comportamento. Em oposição ao modernismo, no qual predomina a alienação e a paranóia, o pós-modernismo é marcado pela esquizofrenia como desordem lingüística, como ruptura na cadeia dos significados. Quando essa cadeia se rompe, temos a esquizofrenia na forma de uma reunião de significantes distintos entre si e sem relação entre si, ou sem significados.

Esta falta de correlação dos significantes ocasiona a ruptura-significante também. Já não basta não ter significado para as coisas, como também ter uma crise de significantes. Isto é lógico, se não tem mais significado a cor vermelha do sinal, não há motivos de tê-la mais como cor vermelha, melhor, não precisamos mais do objeto (o semáforo), que é o terceiro fator de composição da tríade semiótica.

 Diferença esquemática entre modernismo e pós-modernismo
Modernismo/ Pós-Modernismo
Simbolismo/ Dadaísmo
Forma/ Antiforma
Propósito/ Jogo
Projeto/ Acaso
Hierarquia/ Anarquia
Presença/ Ausência
Centralização/ Dispersão
Paranóia/ Esquizofrenia
Seleção/ Combinação
Significado/ Significante
Metafísica/ Ironia

 Ao analisarmos o esquema acima, podemos chegar a uma conclusão de que a crise do significado está implícita no pós-modernismo porque nesse movimento há sempre e constante um jogo que não é arquitetado, ele acontece como por acaso, se esse existe, e é anárquico, com apelo de um discurso da ausência a seu favor. Isto causa esquizofrenia, e quando falo de esquizofrenia aqui, se refere resumidamente a uma frase do filósofo Gilles Deleuze: “não há nada para explicar, para compreender, para interpretar.” Isto é esquizofrenia, e é isto o que o capitalismo vêm causando às pessoas.

 Muito facilmente os sujeitos inseridos na sociedade capitalista, possuem certas facilidades para consumir desenfreadamente objetos, e muitos deles sem utilidades alguma. O capitalismo cega o homem, o consome e o torna em ser super-consumidor sem explicação, sem compreensão, sem interpretação. É como chegar num shopping após ter recebido o salário e entrar na primeira loja, digamos que ela seja de roupas, e comprar mais uma peça de roupa sem necessidade.

 Em nossa época pós-modernista, a moda varia de um dia para o

outro, assim como continuam a crescer o uso de drogas pesadas, o suicídio e desequilíbrio emocional. Tudo isto porque a pós-modernidade tem uma característica básica, senão a principal, que é a ausência de significado para a vida.

 Nessa sociedade invertida, a solução para o massivo uso alienado e induzido de drogas é um bloqueado na mídia, com resultados tão embaraçantes quanto às centenas de milhões de gastos fúteis. Enquanto isso a TV, que é a voz e a alma do mundo moderno, sonha em vão atrair a atenção ao crescimento da ignorância e do que restou da saúde emocional através de propagandas de trinta segundos ou menos. Na cultura industrializada de depressão irreversível, do isolamento e do cinismo, o espírito será o primeiro a morrer, e a morte do planeta será apenas uma lembrança tardia. Assim será, ao menos que apaguemos essa ordem podre, com todas as suas categorias e dinâmicas. Como diria Edgar Morin, ‘este é o espírito do tempo’ e com ou sem significante e significado, a sociedade chegou num ponto crucial. O que faremos? Você tem a solução?

 

Fernando Raine 22/05/2008

 

Próxima Página »



Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.